Sexta-Feira. 16. 5. 08 de G
Gostei tanto de “Um Livro em Fuga” de Edgar Telles Ribeiro que fui em busca de uma outra obra sua, “Olho de Rei”. Mais um livro que se amontoa a outros (esses, entre romances, também de pesquisa sobre trapiches e histórias dos bairros da Saúde, Gamboa, etc. no Rio de Janeiro. Ou seja, os livros continuam se amontoando à minha volta aguardando a leitura ou a releitura ou a pesquisa. Eu continuo em falta com todos eles, como estou em falta na resposta de e.mails e textos rabiscados em guardanapos que deveriam estar publicados aqui e ainda não estão. E não se trata exatamente de excesso de trabalho sim de estresse na tentativa de “alinhar” um equipe de trabalho que, dadas as bruscas mudanças que sofreram, ainda resistem, ainda não se encontraram, onde parece existir um disputa interna além da insistência… em me reafirmar que não consegue se adaptar ao novo. Eu, no fundo, sinto muitíssimo, mas realmente começo a ficar cansado de embates tolos e de repetir explicações, justificaticas, de tentar injetar ânimo e tranqüilidade em todos. Pouco a pouco vou me convencendo de que as pessoas (ou parte delas) infelizmente não entendem o projeto. Falha minha? Talvez. Talvez sim, talvez não. Lidar com pessoal, como canso de repetir, é muito difícil porque as pessoas não administram suas próprias idiossincrasias e esperam somente aprovação no que fazem - mesmo fazendo coisas contrárias ao projeto. Ao longo de mais de trinta anos tenho estado à frente de equipes de trabalho, tenho trabalhado muito, mas sempre em equipe. Essa é a primeira vez que encontro tantas e tão fortes e tão arraigadas dificuldades em “participar de um projeto de cabeça”. Enfim, resta continuar tentando e descansar o possível para a empreitada que se avizinha.
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Quinta-feira. 15. 5. 08 de G
A manhã de sol, o simples fato de acordar cedo e saborear o café bem quente proporcionam a sensação de que a vida se renova, de que as possibilidades de experimentar um pouco mais de todas as coisas trazem tranqüilidade ao espírito - mesmo ciente de que as coisas não são fáceis. Ou melhor: a vida, em si, é fácil, difícil é lidar com o material humano. Por outro lado, percebo todas as possibilidades de surpreendentes encontros com pessoas incríveis, dessas que a gente não imagina encontrar e que, muitas vezes, estão bem ali, embaixo de nosso nariz. Aproximar-se de pessoas interessantes é uma das coisas que mais prezo, que mais me acrescentam nesse mundo. E, no final das contas, elas são imensa maioria.
Quando posso, para relaxar do trabalho, busco a leitura e não posso deixar de me surpreender com “Um Livro de Fuga” de Edgar Telles Ribeiro. Não falo mais para não atrapalhar o prazer de quem se dispuser a ler.
Outro livro importante é “Acervo do Maldizer” (assim mesmo) de Wanderley Guilherme dos Santos, verdadeira aula de onde podem andar nossos pensamentos mais recônditos. São livros que se lêem em uma sentada só, breves e profundos, desses que nos deixam muito tempo depois pensando, repensando e comparando histórias com histórias da nossa própria vida.
Já repeti inúmeras vezes que uma das minhas grandes angústias existenciais é ter consciência de que não terei tempo de ler tudo o que gostaria. O que fazemos é ir lendo, pé ante pé, o que conseguimos (não só porque conseguimos dinheiro para comprar esses livros, mas, principalmente, tempo para ler) - porque ler não deixa de ser um ofício, ainda que seja um prazer.
A solução é buscar equilíbrio entre armadilhas que pessoas plantam à nossa frente com o prazer de conviver com pessoas do bem e reconfortar-se com personagens vários. E deixar o céu azul transbordar-se em si mesmo.
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Às vezes sinto vontade de falar da minha família. Minha mãe, meus filhos, minhas tias (que me deixaram órfão), meu irmão e mais outros, mais distantes. Não consigo, entretanto. Alguma coisa aconteceu, em algum momento que me desgarrei de todos e eu mesmo, sozinho, passei a ser minha família, com a convivência de Artur, meu gato. Já procurei entender o que aconteceu nesse período e não consegui. Nem porquê aconteceu. Com certeza não foi minha família que me abandonou, fui eu que a abandonei. E por quê? Não sei. Talvez preservá-los de perceberem os caminhos que escolhi para mim (resposta cômoda? Sim.) Talvez ainda tenha entendido que, mutante e ermitão por opção, devo seguir meu caminho sem dividir com quem me conheceu no passado - no que me transformei no presente. Talvez, nenhuma das opções acima. Certamente alguma coisa mais profunda (quem sabe, inconsciente?) Famílias encontram-se mais freqüentemente em datas especiais. Nem isso eu faço. Muito poucas coisas eu sei porquê faço. Talvez eu seja um alienado, talvez um mutante, talvez um sobrevivente (não no sentido glamouroso que a palavra se tornou recentemente). Não sei ao certo. O que tenho de certo sou eu e uma possível UTI. Não, nenhum drama, apenas as perspectivas que se encerram em mim diante de uma idade que se encaminha para “avançada”. Já contei aqui que durmo abraçado com meu gato. Já contei que, eventualmente, me deixo levar a ambientes (um tanto sórdidos) onde só existem bebidas, fumaças e alguém cantando na madrugada músicas que gosto e outras que detesto. Com certeza, uma vida errante. E não sei exatamente o que seria uma vida não errante fora o aludido convencional que abandonei. Melhor, não abandonei, a idéia é viva. Não realizo, simplesmente, o convencional. Talvez eu esteja procurando alguma coisa nova como o rouxinol que canta ao alvorecer e me confunda por não estar na alvorada vida. Talvez me perca entre sentimentos diferenciados e, por que não dizer, difusos, intransponíveis. Certamente não estou tratando a realidade de maneira amadora. Não! O que existe é a necessidade - não dita - de uma compreensão impossível. Muitas vezes me encontro no limiar do impossível, da retórica canhestra, do sonho escorregadio, da expectativa vã. São todas encruzilhadas, são todas relativas a uma certa fragmentação de um eu que nunca foi de fato. Percebo que é uma ilusão acreditar que falo toda a verdade na medida em que não a conheço completamente, numa ambiência em que verdades e sonhos e delírios se misturam de forma evidentemente não coerente.
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Sexta-Feira. 9. 5. 08 de G
Caminhante errante. Sou, somos. Busco o indizível, o sentimento de plenitude como algo aproximado do Nirvana, que, reconheço, não sei o que é. Afasto-me de garrafas deixadas ao relento temendo que uma delas possua um gênio que, por sua formação, me ofereceria a oportunidade de realizar três desejos. E não sei o que pediria (creio mesmo que três seja um exagero de pedidos) Durante a madrugada caminhei em meio a dezenas de enjeitados pela vida que dormiam em folhas de jornais. Vidas que não são, que não reclamam exatamente de seus destinos, certamente mais preocupados com as vozes que assolam suas mentes e espíritos. Por um momento perco-me nessa tentativa de compreender o incompreensível. Melhor: incompreensível para mim que sou um saltimbanco limítrofe diante da finitude da vida. Telefono então para uma amiga querida que perdeu seu pai nesse mesmo dia. Quero me mostrar presente, mas sei muito bem que não estou, não sou e a imperfeição da condolência me faz calar. Deixo-me levar em busca de um lugar à sombra mesmo sabendo que ela é vã. Procuro em mim palavras que façam sentido mesmo consciente que palavras não entorpecem as dores, que palavras são muletas humanas, tentativa mais que imperfeita de expressar sentimentos. Pergunto-me ainda quais são as atitudes corretas a tomar diante de acontecimentos concretos. Não encontro resposta porque não reconheço o concreto mesmo na morte. A morte não é concreta porque ao se consolidar, deixa, ao mesmo tempo de ser, é não ser e não há concretude no vácuo, apenas saudade. Essa mesma saudade é um sentimento quase impossível de se traduzir, a saudade me parece um momento de desorganização absoluta de átomos ou galáxias, quando todos os sentimentos, ao mesmo tempo, rompem o dique do possível e inundam a alma de perplexidade. Sim, insisto em me surpreender à cada instante e, ao mesmo tempo, reconhecer que esse “surpreendimento” é fruto do etéreo desconhecimento característico dos viajantes que peregrinam em busca de algo não se dando conta que a Terra é redonda, com redondos são todos os caminhos.
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Terça-feira. 6. 5. 08 de G
Em determinados momentos enfrentamos enormes desertos super áridos, como se tivéssemos viajado ao Saara. Mas o deserto é aqui, é invidual, cabe inteiro em nosso inconsciente (passando para o consciente). Se é realmente assim termino por discordar de Sartre quando afirmou que “o inferno são os outros”. Eu diria que o inferno somos nós mesmos na medida em que não temos o menor controle sobre o inconsciente - e por isso ele é inconsciente.
Por outro lado, seria inconcebível não termos inconsciente. Com certteza seria o mármore do inferno. Viveríamos numa mistura de desejos proibidos, paixões, taras, lutas, assassinatos em massa, suicídios infanticídios etc. sem ter algo que colocasse um pouco de ordem em corações e mentes. E se tudo isso está contido em nós, com certeza, o inferno somos nós (o que não impede que sejamos do outro também)
De uma foma ou de outra é muito bom possuir esse depósito contido, ser, essencialmente, inconsciente ( e um pouco inconseqüentes também)
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Minha caminhada matinal não tem nada a ver com o culto ao corpo nem à saúde. Caminho simplesmente porque tenho que me deslocar de um ponto ao outro para comprar isso ou aquilo. Cigarros, por exemplo. Ao mesmo tempo encontro nas ruas conhecidos. Dessas pessoas que um belo dia te dão “Bom dia” no meio da avenida e, à partir daquela hora, te cumprimentam para sempre. São sempre pessoas de mais idade, pessoas com minha idade. Os mais jovens devem cumprimentar os mais jovens e os jurássicos idem. Quando eu morava em Copacabana ficava impressionado com o número de pessoas de idade que andavam em cadeiras de rodas elétricas (mais pareciam um carrinho, uma baratinha de corrida)). Aqui na Lapa nunca tive oportunidade de cruzar com nenhum sequer. Verdade que as calçadas não são boas e, apesar de se falar tanto em ‘revitalização da Lapa’, é mentira. Aqui só mora gente muito pobre. E pobre não tem cadeira de rodas movida a eletricidade. A Lapa é um ponto turístico onde as pessoas da noite vêm se divertir em busca das casas noturnas abundantes (algumas exóticas). Só isso. Depois cada um pega seu carrão e volta para o bairro de origem. De certa forma, o centro da cidade inteiro deixou de ser um bom lugar de moradia ou que tenha status para tal. Não tem. Quando eu conto para alguma pessoa que moro na Lapa, sempre há um sorriso curioso, como se eu fosse mais valente ou mais pobre. E a fala é sempre a mesma: “Você mora bem dentro do agito, deve ser ótimo morar aí”. Claro que eu não acredito no que estão dizendo, se fosse verdade, essas pessoas que admiram tanto o centro morariam aqui. Nas padarias, farmácias, ruelas, etc. encontro somente pessoas humildes. Outra característica: as pessoas não têm cachorros. Não existem cachorros nas ruas, o que não se pode falar de mendigos (são muitos e muitos). Verdade que também sempre encontrei milhões de mendigos em Copacabana, Ipanema e tal. Enfim, morar na Lapa não é pior nem melhor do que morar em outro lugar, mas não me venham fazer olhares de encantamento, como se aqui fosse um glamour puro. Não é! De toda a forma, eu gosto de morar aqui.
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Quinta-feira. 1. 5. 08 de G
Pela manhã estive com o grupo dos meninos de discussão de literatura. O entusiasmo é grande com os novos textos encontrados no baú de Fernando Pessoa (que morreu inédito). Parece que nunca termina a descoberta de textos do autor. Juntando tudo (do material conhecido) vai nascendo a certeza de que Pessoa levou toda a sua vida num processo de criação feérico, devotado dia e noite à produção dessa caudalosa (e maravilhosa) obra literária. Se reler Fernando Pessoa é um deleite, imagine saber que sempre estão aparecendo mais inéditos do autor! Estranhamente, parece que os eruditos não se dão conta de que o conjunto da obra do autor português faz parte (sim!) dos clássicos universais. E nossa discussão de hoje foi justamente em torno dessa questão: o que é um clássico e porquê Pessoa não é um clássico? Ou é e não se dá o crédito devido? Existe um tendência tolinha de achar que a produção literária moderna é distanciada do que se convencionou chamar cultura universal. Isso é tolo demais, é não perceber o amplo movimento intelectual moderno. É fechar os olhos para o presente.
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Quarta-feira. 30. 4. 08 de G
Uma confusão dos diabos. Confusão tola, dessas que não têm razão de ser, mas ficam ali, perniciosas. Muito difícil fazer pessoas entenderem mudanças radicais, pessoas resistem, insistem num modelo antigo trocando apenas o discurso. Dizeres desnecessários, conversas paralelas. Eu odeio falar, sempre rezo para que as pessoas entendam rapidamente o que estou dizendo. Em alguns momentos da vida, encontro essas pessoas abençoadas, em outros não - e aí me dão uma canseira danada. É gente incapacitada e problemática que by passa etapas, gente que que não tem noção onde está metida (o tamanho da responsabilidade)… uma coisa de “comadres”, mais parece chá de panela… Eu fico olhando aquilo tudo, vendo as pontas todas frouxas, o não entendimento amplo…. enfim…. eu me recuso a administrar pessoas.
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Quarta-feira. 30. 4. 08 de G
Agora começam a aparecer no circo na imprensa sensacionalista que muitas coisas faladas contra os possíveis réus do caso da menina em em São Paulo não são tão verdadeiras assim… Não existe mais garantia de que o sangue no carro era da menina, não existe mais a “prova” do vômito da menina. Ou seja… por mais indícios que hajam a sociedade deve aguardar mais, deve aguardar um julgamento justo e honesto (muito embora, particularmente, se houver prova absoluta do crime perpetuado pelo pai e madrasta eu entenda que a forca é pouco).
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A fragilização do processo ontológico, fruto de uma “modernidade” apressada e não bem compreendida pelas pessoas está causando incapacidade na juventude em perceber a vida e o ser, tais como são. Os jovens não se reconhecem pessoas tais como são e sim numa tribo “diferente” dos “mais velhos”. É bem verdade que essa divisão sempre existiu como um processo da recém criada faixa do adolescente. Mas, com o passar do tempo e o estudo esse jovem começava a perceber o meio e o ser tais como verdadeiramente são e migravam para um grupo (tornando-se adultos) que racionalizava tudo e assim sucessivamente.
Nas minhas atividades com jovens, percebo uma inadequação, não do modo (de ser jovem), mas com um processo que deveria ocorrer em paralelo. A televisão tem uma cota de responsabilidade na história, mas certamente a internet, se mal utilizada, é um tiro fatal no crescimento individual. Quando a formação no - sentido acadêmico - vai sendo deixada de lado em prol de jogos e na pseudo-facilidade que o Google oferecem cria-se um hiato cultural absurdo com o saber (mínimo que seja) necessário ao crescimento. Alguns videntes do futuro já disseram que ‘o verdadeiro saber atual é saber acessar o saber’. Essa “cultura” já vem sendo praticada há dez anos e o que aconteceu nesse período? Nada! E nem vai acontecer se não houver uma guinada firme numa pífia filosofia em prol do verdadeiro amadurecimento. Nelson Rodrigues, indagado por estudantes sobre o que achava da juventude, respondeu: ‘Cresçam, envelheçam”. Essa máxima - que hoje é contada entre sorrisos - é uma verdade profunda para a época em que o escritor a contextualizou. E hoje? Essa frase teria o mesmo valor? Creio que não. Não porque o crescimento não é individual e pleno e sim um crescimento na capacidade de saber acessar o saber. Não se percebe que não somos computadores, não somos internet, não temos um computador grudado no cérebro e, portanto, continuamos necessitando de uma dose forte de conhecimento para ‘andarmos sozinhos’… O e-book não é uma realidade, portanto o que temos de concreto são os livros tradicionais. Desestimular um sujeito em formação à cultura é um retrocesso tamanho que irá alterar a sociedade bem como todo o conceito de humanidade.
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Em meio a uma reunião rotineira de trabalho, uma companheira de trabalho começou a gritar para defender sua opinião - que, por sinal, no meu entendimento - era desapropiada. Houve um período há mais ou menos trinta e cinco anos atrás que “gritos” em televisão eram aceitos e acatados. Hoje, não representam nada, apenas mostram o desequilíbrio a que o estresse nos leva diariamente. Na verdade isso não importa nada. Cito o exemplo apenas para falar sobre o que entendemos sobre ética e estética nos meios de comunicação. Desconsiderando o estresse, quero saber o que se pensa realmente sobre a possibilidade de influenciar milhões de mentes. Vejamos: temos um meio de comunicação poderoso, sabemos que as pessoas assistem e criam situações análogas ao que observaram para suas próprias vidas. A verdade é que a televisão ainda não é - e está longe de ser - um meio de comunicação democrático, que permita a interatividade pessoa/mídia. Falam muito nisso, a classe média que sonha o que não existe (vai existir, é claro). O que existe hoje é um arremedo de boas intenções (tais como o inferno está lotado) de televisões que se propagam como sendo destinadas a atender aos anseios do povo. O que há de verdade e de mentira nessa afirmativa?
Fiz uma edição nesse texto porque usei expressões inadequadas ao me referir a uma colega de trabalho (e amiga), embora em nenhum momento tenha pretendido ofendê-la, mas realmente às vezes “pego pesado” nos termos usados. Desculpe sibceramente (você sabe quem é)
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Sexta-Feira. 25. 4. 08 de G
No prédio em frente, preso por cordas, um operário vai descendo rente à parede. Só de me imaginar naquela situação fico suando frio. Mais de dez andares! O que faz uma pessoa escolher profissões assim? Eu sei, a necessidade, a fome. Certamente não é escolha dele (como a do padre gaiato de viajar pendurado em balões de festa de aniversário). Esse homem aqui está pendurado numa corda. Desce numa espécie de rapel, com os pés apoiados nas paredes externas do edifício. D-u-v-i-d-o que ela tenha participado de qualquer curso ou orientação profissional pra fazer isso. Esses homens - pobres homens - são movidos exclusivamente pela fome e pela noção absoluta de cidadania (ou virariam bandidos). Fico olhando e me perguntando: quanto ganham para fazer o que fazem? Afinal, não passam de operários. Gente sem rosto, sem voz, sem direitos… E se ele se machucar? Como será tratado num hospital público? E se ele morrer? Quem paga o enterro, quem sustenta a família (certamente numerosa por falta de educação sexual e geral)? Enfim, pobres homens arriscando a vida e a saúde diariamente no limite do tolerável para levarem, de madrugada, pão para dentro de casa. Enquanto isso, aquele imbecil daquele padre fica fazendo gracinha. Morreu? Certamente… Com certeza - de maneira inibida - era um suicida. Mas eu me interesso muito mais pela vida dos operários do que a vida desse padre.
Não, não é uma questão de desumanidade. É não gostar de bater palmas pra maluco dançar.
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Quinta-feira. 24. 4. 08 de G
Curioso como as pessoas fazem perguntas a Kastor sobre eu e ela, se fazemos isso e aquilo e outras cositas más. Ela brinca com as respostas, ri muito e termina dizendo que é “brincadeirinha” rsrsr. Será mesmo? K. é um Beuvoir pós moderna, ou meta-Beuvoir. Não posso dizer que tenho um caso com ela - principalmente dependendo do que chamamos “caso”. Mas não posso negar que estamos muito próximos, um de olho sempre atento ao outro. Imagino que saibam porque ela é “minha Castor”. A verdade é que nossas vidas e nossas histórias misturam-se com biografias outras e novelas outras num mosaico, num paradoxo entre o Ser e o Nada. Nesse momento, ambos estamos trabalhando muito, sem tempo para nada, o que não impede de trocarmos rápidas correspondências. Mais ou menos sabemos o que está rolando com o outro. Verdade também que ela me adotou, é minha mãe total, mas ela igualmente sabe o quanto sou incestuoso. O único fato concreto é que não somos equilibrados, nunca fomos e jamais seremos. São Paulo e Rio: Lua e Sol. Vamos nos revezando em encontros e desencontros. Mas que tem alguma coisa nessa história, ah, isso tem.
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Terça-feira. 22. 4. 08 de G
Esperam do velho apenas a escrita (e lúcida) porque gostam de dar risadas das idéias inverossímeis daquilo que não pode se dar, que ele escreve e é lixo do lixo, produto de esclerose. São vasos entupidos, sangue que não mais flui normalmente, interrupções, ausências sem retorno, visão do fim sem, no entando, se dar conta. É risível um escrito assim. Risíveis seriam todos os escritos, mas somos condescendentes com a novela curta e lógica e jamais com um ajuntamento de palavras que não se encaixam, que não fazem sentido dispostas dessa maneira vã, tosca, como a criança que balbucia…. Não, a criança tem a sua graça, a criança, por si, é perdoável, é criança. Não tratamos disso aqui. Tratamos de outra coisa, de outro mundo, de outra pretensão, falamos da invasão do estranho em terras azuis, desse azul límpido que só os super potentes adentram, como a América. Esse texto me sai confuso porque entremeado com uma conversa com o único amigo verdadeira da turma de vagabundos estagiários que contratei para a ex TVE. Mas isso é outra história - que não cabe aqui. Falava de esclerose e, por sinal, não lembro mais o que ia dizer. Mas, muitas vezes, é melhor calar.
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Terça-feira. 22. 4. 08 de G
Bobagem dizer que nem sempre somos compreendidos. Bobagem mesmo. Somos compreendidos todo o tempo. O que ocorre é que nem sempre somos levados à sério. E acho bom não sermos levados todo o tempo à sério. Porque a vida nem as coisas da vida são tão sérias assim. Nada é tão importante. Existe uma desimportância crônica em todas as coisas, desimportância forte e coerente (que algumas pessoas fingem não perceber). Porque perceber a falta de importância do mundo é negar esse mesmo mundo, é negar tudo o que fazemos e o que deixamos ( com culpa) de fazer. Esses dias, quieto, perguntei-me várias vezes o que fazer, que atitude tomar diante da displicência das coisas. De todas as coisas. Não vejo nada à frente, nada ao redor, nada de nada. O anjo me fala da Grande Mentira Encantada que nos seduz. Ouço como quem escuta o canto do rouxinol, como se desses houvessem por aqui. O grande anjo vem regularmente e fala das coisas, mostra os caminhos através do sono. Sono sempre induzido. Os filmes são todos reprises e os livros… ah, os livros… Vejo a alegria com que K. fala dos livros e fico feliz por ela e não digo nada exatamente para que ela continue descobrindo os sonhos dos livros. Como os sonhos de tudo o mais. Porque temos a idade em que podemos - e devemos - sonhar e vivenciar muito. Tudo! Insisto em me olhar do espelho e lembro-me d’O Inquilino de Polansky. Cartas para lá e para cá. Jornais não impressos, folhas em branco que leio atentamente e que me proporcionam surpresas aqui e ali. Ventiladores de teto eternos. Eternas esperanças em pílulas fracassadas.
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Segunda-feira. 21. 4. 08 de G
São dias em que não nos ensinam se devemos ser bacanas ou mal comportados. Esperam uma atitude, sei que esperam. Todo mundo espera uma atitude do outro, bem ali ao lado. Mas a mídia é quem dita qual o comportamento que devemos assumir diariamente. Eu assumo vários e sou pouco influenciado pela mídia porque a conheço por dentro e não acredito nela. Sou o que inventa as histórias para outros e para mim mesmo. Muitas vezes sei que as coisas não vão dar certo, não vão “pegar” porque não foram bem feitas. Sim, coisas devem ser bem feitas, todas as coisas. E, principalmente, explico aos meninos, todas as coisas são “feitas” em algum momento, nada é grátis, nada acontece, nem a chuva. Então somos todos grafiteiros, somos todos bad boys, somos todos o lado esquerdo de deus, a fúria, a ira, o desequilíbrio universal. Sim, sim, eu sou um desequilíbrio universal e sem mim haveriam mais chances para outros como sem outros haveriam mais chances para mim. Estamos todos numa canoa furada, tentando inventar coisas que já foram inventadas desde sempre e sempre. E por que insistimos? Porque não suportamos a existência como ela se apresenta, pálida, sombra fugidia do que seria uma ópera rock, por exemplo. E nem sempre estamos preparados para as óperas como nem sempre estamos preparados para levar socos no estômago de autores que viram tudo de cabeça pra baixo e nos ensinam que não é nada disso que achávamos que era, que tudo é mais, é outra coisa, é desequilíbrio (do nosso ponto de vista) porque desequilíbrio de verdade não existe - como não existe equilíbrio - como não existem regras que esperamos encontrar respeitadas no mendigo da esquina ou na dama da sociedade. Não, é tudo empulhação - eles nos dizem e nós, como cachorrinhos amestrados, dizemos: sim, sim, sim
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Sexta-Feira. 18. 4. 08 de G
Os projetos não são todos deixados de lado, apenas alguns. Essa ideologia de estudar e fazer e propor e provocar incendeia a platéia que poderá estar por aqui no dia seguinte ou não. Na maioria das vezes, os que desistem são os que mais se envolveram com idéias diferentes das suas e não, necessariamente, que discordem delas. Conheço algumas pessoas que discordam sempre de tudo. Tem gente que acha engraçadinho. Eu acho chato. É mais uma das coisas que acho chatas e credito esse sentimento à minha idade, uma uma certa irritação com a futilidade. É bem verdade que não consigo muito bem administrar egos e tentativas tolinhas de desestabilizar alguma coisa quando estou à frente de um projeto. Ou estou em meio a esse projeto, não importa. É preciso realmente um grau de informação grande e de cultura para que nos apeguemos às coisas com o intuito de “desmontá-las”. Não vejo ninguém assim no meu horizonte (o último foi Paulo Francis). Da minha parte, enquanto é possível, mantenho-me num recolhimento que aparenta distração ou inação. Volto-me para livros, para anotações aqui e ali de alguma coisa que me seja útil nesse futuro incerto. Gaston Bachelard, se absorvermos bem suas idéias, trata de algo semelhante (em essência). Não tenho muito o que discutir. Detesto falar. Tenho preguiça. Detesto de me expor e ser questionado. Não porque não tenha convicção do que faço, mas porque perdi a paciência mesmo. Não é com ninguém em particular, é com a humanidade que parece-me (salvo exceções) demasiadamente rasa. De uma certa maneira eu acabo perdendo muito com essas atitudes, visto o afastamento das pessoas que não entendem e percebem uma certa “agressividade não manifestada verbalmente” em mim. Talvez seja isso, mas tudo tem mesmo um preço. Fim de semana com grupo de discussão de literatura. Mais questionamentos, mais gente inquirindo sem estar entendendo o todo.
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Sexta-Feira. 18. 4. 08 de G
Todos sabem que a mais terrível arma das ditaduras são os meios de comunicação. Países em que o governo controla jornais, rádios e televisões são ditaduras sem sombra de dúvida. Sem imprensa livre não há democracia, estamos cansados, todos, de saber. Mas como a sociedade reage? Como se posicionam os intelectuais de cada região ameaçada? Que atitudes a classe média toma? E os outros meios de comunicação? Como se dirigem ao povo? Os que têm o poder da escrita e da publicação, da divulgação de idéias… o que fazem? Até mesmo um blog fomenta idéias! O que todos nós estamos fazendo com o poder de divulgação de opiniões que as novas (nem tão novas) tecnologias nos oferecem?
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Sexta-Feira. 18. 4. 08 de G
Tenho, nesses tempos de pressa uma dívida com os outros blogues: não tenho lido nada. Hoje li um deles em que sou citado. Mal citado, bem entendido. Realmente não me interessa porque essas coisas estão aquém das minhas prioridades. Não é à toa que inúmeras pesquisas apontam o Brasil como o país com piores blogs de todos os tempos. Escreve-se mal. Fala-se mal da vida alheia. Calunia-se. Defende-se mulheres de outro continente na esperança vã de uma trepadinha num futuro (quem sabe?). Realmente é tudo verdade. Trata-se de um bando de candinhas mal amadas (homens e mulheres que não têm o que fazer). Enfim…
Sou contra a precipitação no julgamento de atitudes e, principalmente, de pessoas. Evidente que as coisas devem caminhar a seu tempo, que devem ser feitas todas as investigações e recolhimento de provas e, em caso de dúvida, pressupõe-se a inocência do acusado. Todos são inocentes até que prove o contrário. Consciente de todas essas regras óbvias da sociedade democrática, fico me perguntando sobre o assassinato da menina em São Paulo. Certo, pai e madrasta negam o crime. O avô diz que “entregaria” o filho se o achasse culpado. Será mesmo? A imprensa faz um circo diante da notícia (como se não estivesse acontecendo mais nada no Brasil e no mundo!). Mas, ok, então, depois de mais de 50 depoimentos recolhidos, de perícias e mais perícias, o que pode ter ocorrido de verdade? O pai deixou a menina dormindo na cama e voltou para buscar as outras crianças e a mulher que ficaram no carro. Trancou a porta do apartamento antes de sair. Retornou rapidamente e a menina tinha sido esganada, a grade da janela cortada e seu corpo estava no chão, seis andares abaixo. Não houve arrombamento no apartamento, não houve roubo nem estupro. O que aconteceu então? Enquanto o pai voltava ao térreo um bandido, munido da chave do apartamento entrou, cortou a grade, apertou o pescoço da menina e jogou-a? Por que? Para quê? Marginais invadem apartamentos para roubar e estuprar, não é isso? Nada disso aconteceu. Deixa eu entender e repetir: um facínora estava escondido no andar em que a menina morava, possuía chave do imóvel ou era rapidíssimo em abrir fechaduras sem deixar marcas de arrombamento, entrou, bateu na menina (sangue pra todo lado), cortou a grade da janela e, satisfeito, foi embora? Assim? Dessa maneira? O único objetivo desse monstro era esse? Matou a menina para “ajustar contas” ou por “queima de arquivo”??? Por que? Por que?
De qualquer forma, quem fez isso é um monstro. Quem fez isso não tem sequer direito à vida e muito menos à liberdade. Se houve cúmplice, idem, idem. Quanto tempo mais a polícia vai levar para concluir o inquérito?? E a justiça? Quanto tempo? E qual será o resultado? Que pena (penas) será aplicada? Contra os que dizem que a sociedade está focada nesse caso (enquanto outros, similares, acontecem freqüentemente no país) a resposta é óbvia. É um caso emblemático e todo o cidadão se coloca na posição de mãe e da criança. Esse crime hediondo recria o pânico em que vivemos. Até quando?
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Quarta-feira. 16. 4. 08 de G
Não sei se foram os derrames de Sartre ou seu alcoolismo o que mais me impressionaram. Creio que foram os derrames. Essa doença que chega de repente e nos joga no chão da vida parece-me uma prova contundente da não existência de Deus. A menos, como me disse D., não seja razoável que, existindo, Deus seja bom. Sim, pode até existir Deus, mas ele nem é bom nem justo. Mas ora! Seres humanos não são bons nem justos. De que serve então um Deus igualmente insano? Melhor lidar com as insanidades terrenas. Ou não é nada disso? Se não é nada disso, devemos deixar de lado um pouco Deus (que ouve oito bilhões de súplicas - atendendo aqui e ali) e partirmos para uma fé um pouco mais rasa, essa que apregoa que, à princípio, somos todos culpados e pecadores e o que nos acontece é apenas o castigo pelo que fizemos. E se não fizemos nada? Bom, pelo que fizemos em outra vida e não lembramos. Ou seja: de uma maneira ou de outra estamos condenados ao sofrimento, à dor, à desgraça terrena em nome de uma justiça divina. E é com isso que querem me convencer… (continua)
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Quarta-feira. 16. 4. 08 de G
Ainda busco em meus sonhos alucinados motivos para os acontecimentos factuais à minha volta. Não encontro. Não encontro nenhum tipo de justificativa, de explicação, de racionalização. Vem tudo embrulhado em papel jornal, com grandes manchetes como se houvessem grandes descobertas. Não há nada. Escrevem por escrever, dizem por dizer, afirmam sem certeza. É mentiroso o número de vítimas fatais por dengue. É mentira que a violência ou a fome tenham diminuído. Trata-se ainda de um país que engatinha, um país sem opinião, sem reação. Todas as manchetes falam em CPIs, em meninas atiradas pelas janelas ou em meninos arrastados por automóveis. E se comenta cada um dos casos isoladamente de forma a confundir, de forma a que não se tenha uma visão maior, global da história toda. É a certeza da impunidade, o aviltante conceito dos votos de cabresto e todas as maracutaias que governo atrás de governo promovem e cultuam. Fala-se tanto de um país melhor, mas devem ser ouvidos os cidadãos desse país e não as autoridades (corruptas) ou a imprensa (chinfrim). Gente. Eu queria ver gente falando, gente falando a verdade e não esses miseráveis transportados em ônibus partidários que recebem um sanduíche vagabundo e um copo de suco de nada para aplaudirem qualquer coisa. Promover uma radiografia tosca de uma sociedade onde até a classe média “embarca” (sim, porque se acham o máximo e embarcam!) é tentar jogar areia nos olhos de todos. Procure matricular uma criança em escola pública, procure assistência num hospital público, calcule quanto você paga em impostos embutidos ou assumidos. Perceba a brutalidade boçal da discussão sobre as pesquisas com células-tronco, perceba o racismo, a homofobia, os salários defasados a carência de cultura e de um mínimo de informação verdadeira, coerente. Procure! Perceba como o país anda para trás sempre, perceba que os governos todos se dizem “para o povo” e nenhum de fato tem a preocupação social que deveria ter. Sim, temos que falar de fatos isolados, mas precisamos, antes de tudo, perceber com clareza o tipo de vida que levamos realmente e não o da propaganda enganosa que nos enfiam goela abaixo.
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Segunda-feira. 14. 4. 08 de G
O nascer do dia, a possibilidade de sair e fazer coisas um tiquinho diferentes - como gravar o Comentário Geral com uma apresentadora nova (nada contra a anterior) - me deixa entusiasmado e mesmo ansioso, ansiedade que sempre sinto ao entrar num estúdio, ao ver câmeras, refletores, cenários, gente que se move, gente que faz. Eu já disse aqui várias vezes: todas as gravações me são diferentes, me fazem pensar em possibilidades outras, sempre a gente pode inventar um coisinha qualquer e sempre com aquela dose (ínfima que seja) de adrenalina no sangue (minha droga predileta)
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Tempos silenciosos. Tempos em que não nos comunicamos, preferimos não dizer, não questionar nem afirmar. E já não sei se esse tempo é bom ou ruim. Mas há silêncio, sem dúvida. Estamos demasiadamente envolvidos conosco, observando nossos pensamentos (sempre escusos). Porque, na verdade, existem outros eus, uma outra personalidade que habita meu corpo, o seu, o dela. E conversamos - e damos ouvidos - a essa outra personalidade. Virgínia Wolf escutou tantas e tantas vozes que preferiu o fundo do rio. Nós não escutamos vozes. Nós criamos vozes, personagens que somos de nós mesmos e que se rebelam provocando nossas discussões internas e, portanto, nossos silêncios externos. Não existe esse homem só que Camus pretendeu. Existe o homem como grupo. Interno e externo. Existe sim a possibilidade da paixão devoradora ou do ócio emocional. Uma ponte arcaica de madeiras e cipós que atravessamos pé ante pé, atentos a que o desequilíbrio pode ser fatal. Gal Fatal. Buscamos horizontes além das nuvens não porque necessitemos sonhar, mas, antes, porque AQUI não basta. Não me basta esse aqui, nem aquele ali. Preciso (precisamos) de mais, de muito mais, de mochila nas costas da alma para viagens longas, para terras e pessoas desconhecidas. Nossos passos são de anos-luz. Nossa curiosidade não finda com o ponto último do romance. Seria simplista demais. Ontem vi um homem velho e, aparentemente, embriagado equilibrando-se no meio da rua à noite, numa encruzilhada com os carros passando à sua volta, passando pertinho e fiquei ali olhando, sem conseguir me mexer, esperando um carro atingir mortalmente o velho. Por que não fui salvá-lo? Por quê? Mas a vida independe de mim e o homem chegou à calçada salvo como um justo, mais salvo do que eu. Vi um velho em perigo, pronto para morrer e fiquei paralisado. E ele me mostrou que, sim, a vida independe das minhas ações e talvez hoje ele esteja novamente cambaleando numa encruzilhada e vá morrer apenas quando chegar à calçada, morrer de morte morrida, dessas sem história para contar, sem colorido vermelho. Na verdade estamos todos nas encruzilhadas da vida e da morte, estamos todos nos equilibrando em qualquer coisa, todos sendo observados, todos definitivamente sós.
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Sexta-Feira. 11. 4. 08 de G
Olho a minha sala. As paredes, objetos, coisas. Minhas coisas. Esse monte de cacarecos que colecionei em meio século de vida. Eventualmente foram mesmo sonho de consumo. Hoje não são nada, estão ali, imprestáveis. Pilhas de folhas de papéis manuscritos, uma caneca azul, um telefone sem fio que não funciona mais, uma quantidade de canetas muito maior do que a minha real necessidade. Uma cafeteira e maços de cigarro Marlboro espalhados aqui e ali. Uma rã de pano que a faxineira me deu de presente (e já contei aqui essa história: essa mulher não é apenas uma faxineira, é a pessoa que organiza e cuida de tudo para mim). Uma imagem de São Francisco (sim, estilizada porque sou ateu). Tenho simpatia pela imagem de São Francisco, não por sua história, mas realmente por sua imagem embora me desagradem aqueles passarinhos todos que deveriam cagar toda a sua roupa. Desagrada-me imaginar um São Francisco com vestimentas cagadas por pássaros. Deve ser uma tolice minha: pássaros não podem cagar em santos. Minha sala. Parede azul e parede branca. Chão de ladrilhos. Livros lidos e livros aguardando. Queijo ralado, leite e cerveja na geladeira. Observo atentamente e acho tudo tão sem importância… Coisas não são importantes. Pessoas são importantes, mas pessoas morrem. Quando eu morrer a vida vai continuar aí para os jovens, os sortudos, os saudáveis, os que nascerão? Não sei. Porque a vida é minha. Fui eu que juntei a tralha na minha sala é esse meu pulmão baleado que respira e, através de lentes corretoras, são meus olhos que observam a beleza e a tragédia dos homens. Se eu não existo, não posso ver e vivenciar a vida. E se não sou, não existe vida. Entretanto, não me convenço com uma filosofia tão barata. Outros, antes de mim viveram essa mesma vida: morreram e a vida continuou para mim. Ou seja, a vida não é minha, embora seja a minha vida. Talvez eu seja um passageiro numa espécie de rio e quando este chegar ao mar eu não estarei presente porque estar vivo representa “descer o rio”. Simplesmente. Por outra: talvez eu seja um peixe vivente num enorme cardume que um dia, sem mais nem menos, serei pescado pelo anzol de um menino de doze anos. Um peixe de águas rasas porque um peixe de regiões abissais seria alguém muito saudável que morreria de velhice. Se eu estou delirando? Certamente… e quem não delira? Resta-me então nadar, observar plantinhas e ver as pedras que rolam no fundo do rio, rolam tanto que terminam achatadas (mas continuam pedras)
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Sexta-Feira. 11. 4. 08 de G
Dias chuvosos, pessoas de caminhar apressado com guarda chuvas ou não. Pessoas que olham para os lados ao pressentir qualquer coisa, seja a presença de um estranho - possível assaltante - seja a percepção de um mosquito - certidão de óbito. Sei que essa vida, esse tipo de vida “seria” normal nas grandes cidades, mas não tanto quanto no Rio de Janeiro. Os jornais e seus especialistas e conteudistas dizem que o Rio não é a cidade mais violenta do Brasil. Realmente não sei se é verdade, mas tenho certeza de que é violenta o bastante para deixar as pessoas apavoradas. Na minha esquina existe uma antiga e simpática loja de doces (onde sempre fui com meu filho comprar ‘balas boneco’). Pois o dono, um senhor aparentemente saudável morreu esta semana de dengue. Como podem tantas pessoas morrerem de dengue?! As populações de outras cidades estavam tranqüilas, entendendo que a dengue era um mal do Rio (e é), mas o descaso nojento das autoridades responsáveis (??? ah ah ah) propiciou o inevitável: a doença está começando a espalhar-se pelo país. Dia desses me falaram uma bobagem qualquer à respeito do livro “A Peste” de Camus. Nada a ver. Camus escreveu um crônica política, metáfora do tempo que ele vivenciava e dos movimentos políticos que fervilhavam. O Rio tem uma epidemia de uma doença chinfrim, terceiro-mundista, compatível com a inércia e o desrespeito babalaô de autoridades (autoridades? ah ah ah). Tudo (ou quase tudo) me irrita nesse país: tanto o descaso de políticos safados quanto as opiniões tolinhas de “erudidos” de ‘orelhas de livros’ ou do Google.
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Quarta-feira. 9. 4. 08 de G
Escrever por escrever não leva à nada. Acho que é por isso que estou escrevendo menos (ou nada, como queiram) e lendo mais. Na leitura encontro conforto e repouso para a minha alma intempestiva. Sendo assim, mudo meus compromissos, faço um certo ‘corpo mole’ nos momentos e folga e, conseqüentemente, produzo menos. Mas é fase, são tempos turbulentos que contribuem com meu self fragmentado. Tenho procurado delirar um pouco menos (porque sempre existe a possibilidade de não retornarmos dos delírios o - que pode não ser uma idéia má. (continua)
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Segunda-feira. 7. 4. 08 de G
Jornais falam da epidemia da dengue, dos “tribunais” de execução nos morros e do dossiê de D. Dilma. Esses assuntos são recorrentes há mais de quinze dias. Não se fala em mais nada e, muito menos, resolvem-se essas questões. O Brasil é mais ou menos assim: sem solução. Não adianta nem a denúncia da imprensa, não adianta nada! É triste viver num lugar assim, nessa desordem, balbúrdia, irresponsabilidade. O povo é bovino, não vai para as ruas, não cria situações de fato. O tempo da passeata dos cem mil acabou, não volta mais. Simplesmente todo mundo acovardado, quieto em casa, sussurrando em botequins. Quer dizer, falar dessas coisas aqui, igualmente resultará em NADA!
Os dias de chuva são mais ou menos depressivos (ou deprimentes, como queiram) e, por outro lado estimulam o exercício pródigo da leitura e da escrita. E como os jornais são repetição da repetição restam os livros que nos trazem situações novas, empolgantes e emocionantes. Mais do que o cinema, a internet e a televisão, o livro ainda é o modo ideal de ocupação não formal (como carregar pedras, por exemplo). E repito que ainda estou muito atrasado em minhas leituras (finalizando agora “A elegância do ouriço” - indicação perfeita da mais que perfeita K.) Claro que isso não diminui minha angústia porque a pilha de livros à espera continua ali, olhando-me de soslaio. E repito que existem épocas em que damos uma certa emburrecida sim. Existem fases de desinteresse pelos livros, uma preguiça ancestral, atávica, uma distração que impossibilita avançar duas páginas… Ainda mais quando você olha seu saldo bancário negativo (rs). Estive assim e passou (o saldo continua igual). Voltando ao livro, muito interessante a passagem da menina que tenta fingir que é esquizofrênica. De certa maneira, acho que todo mundo é ou gostaria de ser um pouquinho esquizofrênico (mas não temos esse diagnóstico e isso frustra).
O resultado é que nos entregamos à Filosofia e ao estudo da Estética. Porque ambas as matérias são primas da loucura, dessa loucura básica que precisamos conquistar. Uma pessoa sem um mínimo de loucura nem chega a poder se classificar como pessoa. Temos todos a necessidade de falar e fazer coisas diferentes, nem que seja um pouquinho por dia. Quem não consegue, quem se impõe uma rotina draconiana embarca num processo regressivo até virar um macaco. Por isso vejo tantos macacos pelas ruas e todos eles chamam a atenção não por serem macacos, mas por serem macacos aloprados (palavra da moda). No momento, talvez eu seja um aloprado que ainda não chegou a macaco.
Se eu busco a fantasia? Sim, quem não busca? Como viver sem fantasia? Viver a vida à seco é nada, é não viver, é tornar-se o espermatozóide que não chegou lá. Até porque a fantasia é muito mais real do que algumas ‘realidades’ impostas e aceitas por um grupo. A realidade nada mais é do que um tipo de fantasia criada em cartório, com firma reconhecida. Eles dizem: “isso é a realidade” e colocam um carimbo. Ora, que bobagem: realidade e fantasia se entrelaçam e bailam juntas na geléia geral do dia a dia profano. Esperar alguma coisa muito diferente disso é esperar o que chamam de milagre e aí começa aquela história toda novamente sobre quem faz e quem é beneficiário dos milagres (e porquê). E como não espero milagre algum prefiro promover a grande festa, a grande bacanal, a urdidura do salto no escuro não me interessando se estou na senzala ou não.
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Realmente não tenho audiência. Mentira, os números de visitas são altos, mas os comentários, pífios (em quantidade). Ninguém tem responsabilidade sobre isso, apenas eu. Falo de coisas “incomentáveis“. Trato de sentimentos, experiências e vivências metafísicas e ninguém (com toda a razão quer se meter nessa história complicada e chata)! - Até mesmo minha fiel K. sumiu! De uma certa forma eu estaria ardendo no mármore do inferno se a tiragem fosse essencial. Não é. Estou completamente absorvido no trabalho da construção de um novo modelo de televisão. No futuro poderei ser reconhecido ou galhardamente defenestrado. Por incrível que possa parecer, não me importo muito. Creio que não tenho mais nada a mostrar a ninguém, tenho apenas que realizar as coisas que acredito (o conceito de ‘bem feito’ ou ‘mal feito’ é absolutamente relativo e, de certa forma, me soa irrelevante). Muitas noites em claro, Nenhuma leitura, pouquíssima escrita, apenas uma preocupação estética e de conteúdo com o que produzo. Pode ser o canto da cotovia que Romeo anunciou (ou foi Julieta? Não lembro). Em algum momento estaremos empreendendo o último voo, não é verdade? Pode ser agora e pode não ser (torço para que não seja). Aprendi, depois de bem velho, a gostar da vida. Eu não gostava da vida na minha juventude… Agora, num provável ocaso, gosto. Como sempre digo, eu mudo de opinião rs. Mas nesse momento não são essas coisas que ocupam essa mente claudicante… É a necessidade de colocar no ar um produto digno. Nada mais. Persigo essa proposta febrilmente. Conseguirei ou não. Impossível imaginar agora se conseguirei. Por outro lado, sinto imensa falta dos personagens dos livros que costumo (costumava) ler. Sinto-me mais ou menos órfão. Igualmente sei que as pessoas no meu trabalho ainda não me conhecem nem reconhecem (normal). Imagino que hoje eu esteja num dia “não”, talvez um pouco fragilizado por uma série de coisas. Mas sei que é assim mesmo, “faz parte do meu show”. Cigarros, bules e bules de café. Um tosse seca me persegue e relembro “A Montanha Mágica” de T. M. Claro que sou um ator de quinta que pretende, sem sucesso, provocar lágrimas numa platéia de esqueletos. Bem sei que o momento seria de aposentadoria, de abrir espaço para os meninos de talento que estão aparecendo. Ainda não tenho a resposta exata para continuar em cena, farsa da farsa. Tédio e Náusea. Sei que, no mínimo, não “sou mais o cara”. Sou um insistente, remanescente, sobrevivente. O mundo mudou e eu não acompanhei. Novamente a farsa: sou um “amador” e “fazedor” chorão.
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Sexta-Feira. 4. 4. 08 de G
Não ser bem compreendido não é uma especificidade minha. A maioria das pessoas não são compreendidas em sua totalidade e acho isso muito bom. Falar e fazer coisas que o outro não entende à princípio gera o “motor” da discussão (principalmente ideológica). E, sem discussão não há solução. Não me incomoda em nada exercitar a defesa de minhas opiniões e teorias mesmo quando, ao fim, sou “convencido” de que estava errado. Filosoficamente para mim é indiferente se estou certo ou errado porque é isso mesmo, eu sou um aprendiz. Estou na vida para aprender e bem sei que minha luz se apagará muito antes que eu “aprenda tudo” (se isso fosse possível). Ao contrário do Chacrinha, eu não “vim para confundir” e sim para questionar tudo e todos, principalmente a mim mesmo. Agora, se essa ânsia de aprender e, eventualmente, criar “verdades” não é aceita pelas pessoas do meu entorno, aí é outra história (que também não me interessa em nada). Claro que eu desagrado e muito - simplesmente porque penso. Penso, digo e faço. Acertando algumas vezes e, igualmente, errando em outras. Acho curiosa a vida porque é nessa vida que aprendemos e experimentamos muito embora depois voltemos ao pó. Ou seja: independentemente de se ” a terra me será pesada” ou não, serei um adubo que leu três livros e viu três filmes. Talvez o adubo ao meu lado não tenha passado por essa experiência. Mas, afinal, algum espermatozóide precisava ganhar a corrida, não é verdade? Já repeti aqui milhares de vezes que escrevo o script do meu personagem no palco da vida - que se mistura com o meu EU - e, igualmente, reescrevo esse mesmo roteiro - ou um outro completamente diverso - quantas vezes achar necessárias. E será assim até o final do meu tempo. Sucesso, fracasso, sorte, azar? Simples parte do jogo. Não escolhi especificamente esse jogo - ele é uma espécie de herança que recebi. Então eu jogo. Louco, certo, inseguro, errado, excêntrico ou lá o adjetivo que me preguem às costas… Fazer o quê? Talvez eu seja tudo isso e talvez não. Quem sabe sou apenas uma parte disso? Realmente eu não sei. Mudo de opinião? Mudo. Invento histórias para mim mesmo? Invento. Desisto dessas histórias de vez em quando e reescrevo outras? Sim! Com toda a certeza. Como diz o Lobão, não sou “assepticamente correto”. Nem quero ser e detesto quem é. Idolatro pessoas e desprezo outras. Gosto de macarrão e detesto verduras. E daí? Sim, é verdade que não creio em homeopatia e acredito em alopatia. Sou ateu, mas continuarei sendo nas dores lancinantes, cruciantes do câncer? Talvez sim, talvez não. No fundo eu acho que não existo, eu aconteço.
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Quarta-feira. 2. 4. 08 de G
Existe uma dívida existencial com o profano, existe uma pendenga eterna entre bem e mal que deus não dá conta. Nem vários deuses. Isso vem da vida sobre a Terra. Claro que não resolverei isso agora. O que me vem à cabeça é Sérgio Brito, Fábio Sabag, Napoleão Moniz Freire e Zilka Sallaberry (minha tia amada acima de tudo e todos) interpretando Fim de Jogo, de Beckett. Já busquei Druídas, Deusas da Terra e milhares de pirilampos mágicos que vagueiam na noite dos homens. Nenhuma resposta. Todas as respostas estão em mim e isso me dá uma tremenda desconfiança de toda a raça humana. Se Blade Runner não me dá resposta satisfatória, procuro (sem resultado) Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Nada. Silêncio cavernoso. Dou zero para Kerouac e afins. Nesse momento percebemos que estamos irremediavelmente sozinhos, entendemos melhor quando Cazuza nos disse que “meus heróis morreram de over dose”. Vemos amigos disputando espaços, pura carniça. Gente mentindo, enganando, sendo enganada, acusando, sendo acusada, boatos rolando, uma selva com feras salivando. Cara! Estou fora disso! Que rei sou eu? Não sou rei e tenho majestade, tenho história e só me interessa contar minha história (ou escutar alguma história). O resto é o restolho, não me interessa em nada, mesmo as decepções recentes. Porque decepção faz parte da vida vivida, não é susto pra ninguém. Realmente não me assusto. Tenho pessoas que me são sublimes como minha Kastor e isso me basta…. e muito. O que me salva do mármore do inferno são pessoas como ela que me revitalizam, me empurram pra frente, me dão prazer de viver. Prazer de viver. Repito: prazer de viver a vida vivida. Sou um abençoado nem sei mais por quem, mas estou em pé, vergando eventualmente com o vento e voltando à majestade do abacateiro. Talvez eu seja um abacateiro sem abacates, mas não se sabe o dia de amanhã. Hoje estou vivo.
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Terça-feira. 1. 4. 08 de G
Tenho andado meio por fora do que rola aqui pelos blogues. Falta de tempo mesmo e não de atenção. Igualmente recebendo e.mails carinhosos e respondendo a poucos. Mais um tiquinho de paciência, responderei tudo. De vez em quando passamos por momentos de tormenta (externa) mesmo. Mas é preciso dar conta de uma série de coisas, de empreitadas, de necessidades que se repetem e aumentam diariamente. Esse desgaste e ocupação parecem-me naturais num momento de transição, de implantação de novos projetos. A vida, de uma maneira geral, é assim mesmo: eternamente implantando novos projetos, certo?
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Terça-feira. 1. 4. 08 de G
Televisão aberta com filmes banais. Parece que a TV Brasil vai revigorar isso exibindo filmes nacionais, africanos, orientais… enfim… esperar para ver.
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Terça-feira. 1. 4. 08 de G
Não há mais o que escrever sobre a escandalosa epidemia de dengue no Rio de Janeiro. É uma vergonha. Governos municipais, estaduais e federal completamente acéfalos, completamente irresponsáveis. São verdadeiros assassinos! Todos os jornais, todos os editorialistas já escreveram tudo, não há nada mais a acrescentar. Só ojeriza pelos políticos. TODOS!
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Terça-feira. 1. 4. 08 de G
Dia desses conheci um profeta encarnado numa zeladora de apartamentos humilde e profundamente culta. Fiquei abismado com as surpresas que o mundo revela. Expus todas as minhas teorias, falei o quanto pude de mim, das minhas certezas e das inseguranças, dos medos e dos orgulhos. Ela ouviu calada e depois, com muita calma, serenidade e humildade, respondeu a tudo baseada em Filosofia, citando de cor pensamentos oportunos de inúmeros filósofos e buscando exemplos práticos colhidos nos clássicos da literatura. Confesso que fiquei abismado. Como aquela mulher se viço, dessas que nos passam na rua com toda a sua humildade e pobreza conseguiu tal façanha? Com tanto trabalho duro, onde encontrou tempo para estudar sozinha (autodidata), para conhecer tanta literatura universal, para ir tão fundo na filosofia (clássica - desde os pré-socráticos)? Essa mulher baixa, gorda, feia, andando na feira com seu carrinho, comprando tomates? Como seria possível? Concluí que sou pedante e preconceituoso - e tenho, portanto que aprender muito na vida, não sei nada, não sou nada.
(Sim, sim… A Elegância do Ouriço)
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Segunda-feira. 31. 3. 08 de G
Quase pneumonia. Por um triz. Excesso de trabalho, excesso de ar condicionado forte. Roupas inadequadas. Ansiedade, quase desespero. Muitas opiniões diferentes ou eu não estou entendo bem as coisas. Foi um fim de semana de pânico, mármore do inferno. Não pelo trabalho. Trabalhar é mole. Será que realmente eu não estou mais entendendo as coisas direito? Talvez seja a hora de rever meus conceitos de vida e de saúde. Vem pela frente uma carga enorme de trabalho (isso é ótimo porque acredito realmente na proposta nova). Mas preciso me preservar minimamente para estar firme e realizar os projetos (que são muitos). Devo estar bobeando talvez na minha vida particular. Talvez não. De qualquer maneira, alguma coisa tem que mudar. Rever, rever, rever.
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Sexta-Feira. 28. 3. 08 de G
Falta ao brasileiro o conceito, a sensação de brasilidade. Ser brasileiro, de certa forma, é ser especial, melhor em umas coisas, pior em outras, mas a média é excelente. O que não existe ainda é um meio de comunicação que integre os “Brasis”, que mostre a realidade, o lado ‘abandonado’ pela mídia, um monte de gente, de agrupamentos, de associações que fazem muito, às vezes até mais que os governos. Nada disso é mostrado. Pois é nessa mistura cadenciada, nessa miscigenação belíssima (e malemolente) que estou envolvido para o próximo produto da TV Brasil, A Revista Brasil. Nós queremos gente do país inteiro escrevendo, mandando idéias, gravando com aparelhos celulares ou o que for… podem ser cartas mandadas pelo Correio, podem ser comentários num blog que em breve estará no ar… Queremos o seringueiro, o pescador e sua jangada, o herói dos Pampas, o homem da britadeira, o cientista e o intelectual… TODOS envolvidos num projeto ousado, numa Revista não recheada de efeitos especiais, mas num canal público de informação franca e de interatividade absoluta.
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Quinta-feira. 27. 3. 08 de G
Em duas caixas de sapatos, guardei ontem toda a papelada que venho juntando há anos. Ou melhor: toda não, mas as coisas que me interessavam. Surpreso, entendi que minha vida se resume a duas caixas e meu corpo cremado se resumirá a uma pequena urna. Isso absolutamente - jamais! - me deprimiu, ao contrário, percebi que podemos fazer muito em pouquíssimo espaço. Por essa visão a humanidade é perfeita porque só é “espaçosa” se assim desejarem egos enormes. Muita coisa pode estar num rolo de filme, num livro, numa fita de vídeo tape, numa pequena escultura. Células e átomos nos demonstram isso diariamente e não nos damos conta. Mas é isso. O mundo é pequeno, as pessoas são pequenas (ou deveriam) ser e, se houvesse realmente vontade política dos governantes, não existiria tamanha distância entre as classes. Os homens é que são naturalmente cruéis.
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Quinta-feira. 27. 3. 08 de G
Quando me busco encontro um espelho desses que distorcem nossa imagem. Não necessariamente para pior, mas não me reproduz fidedignamente. E daí concluo que todos nós em nossas eternas buscas do “eu” somos enganados. O verdadeiro “eu” de cada um está escondido em regiões profundas, abissais e não acessíveis da alma. Verdade que a psicanálise tem um papel importante nesse “resgate”, mas ainda assim não creio que haja 100% de acerto. Esse “descobrir-se” talvez seja possível ao cabo de muitos anos de auto-análise, de buscas interiores e, acredite, de uma certa comparação entre o que chamamos de real e todo o mundo imaginário das obras de arte. As artes (principalmente a escrita) são uma espécie de apanágio, uma espécie de porto seguro a que terminamos por chegar independente de nossas relações de trabalho, de amizade ou de família numerosa.
O porto seguro é individualíssimo, não aceita mais de um vivente (embora existam portos para toda a humanidade). Curioso é que algumas pessoas consomem toda a sua vida de maneira simplista e, na velhice, não têm onde “atracar”. Pessoas que ficam reféns de filhos, parentes próximos, asilos e tal. Ao contrário do que almejamos, viver demais (salvo casos raros) é péssimo, a velhice não perdoa e o velho torna-se indefeso como um recém-nascido, mas sem o seu glamour. Se radicalizar (calma!), - um velho ao ver-se sozinho ou ser encaminhado a um asilo “porque será melhor para ele” - deveria, antes, suicidar-se. Entretanto homens são demasiadamente apegados à vida, acreditam piamente que um dia a mais é sempre um ganho sem se preocuparem com a qualidade dessa vida e desses dias fadados a serem nada mais que um estorvo na vida dos outros.
Claro que desenvolvo esse pensamento porque ainda tenho alguma atividade física e intelectual, mas, se eu chegasse a envelhecer certamente faria igual a todos os outros e me agarraria à vida de todas as maneiras, De onde concluo então que esse texto é completamente inútil.
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Quarta-feira. 26. 3. 08 de G
Algumas pessoas conhecidas me perguntam sobre o Revista Brasil, programa da TV Brasil. Alguns estão achando que será um programa apenas de notícias atuais e agenda cultural. Não é nada disso! Parece que falta comunicação, que os devidos setores da empresa não sabem fazer o dever de casa. O programa Revista Brasil que vem aí de cara nova não é isso. Trata-se, na verdade, de um mosaico de informações que vão da África ao Modernismo de 22, do caos no trânsito das capitais à falta de água potável no mundo, do Reizado ao Carnaval, das galerias de Arte à Arte desenvolvida nas favelas, da literatura aos quadrinhos, do Terceiro Setor à Bahia e aos primórdios da Rádio no Brasil… e assim por diante (claro, sem deixar de lado o factual). Trata-se de um programa que demanda uma imensidão de pesquisa, de gravações externas, de roteiro e edição ágeis e, conquentemente, mais na frente, de muito estresse na equipe envolvida. Acho que um programa assim, em TV aberta, nas tardes de domingo vai bombar onde as pessoas só tem como opção Faustão e Gugu. E, claro, incluo-me na equipe rsrs.
OBS: REPITO! ROMANCE INÉDITO DE PAULO FRANCIS!
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Quarta-feira. 26. 3. 08 de G
A situação na China e Tibet é insustentável. Americanos com seu poderoso exército deveriam estar lá numa missão de paz antes que chineses exterminem tibetanos, mas claro, o presidente preocupa-se apenas com o Iraque e não quer mexer na parceria com a China e seus produtos baratos. E onde estão todas as ONGs de Direitos Humanos e tal (só servem para abraçar árvores e lagoas? Para recuperar corpos de revoluções passadas?) Que mundo, que gente sórdida!
OBS: SAIU ROMANCE INÉDITO DE PAULO FRANCIS!
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